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O processo de integração indígena na sociedade capitalista


“Um dos mitos brasileiros que, infelizmente, ainda persiste, é o de que índio deve deixar de ser índio para se tornar cidadão brasileiro” diz antropóloga Betty Mindlin

                                                                                                                             Por Bruna V. Gonçalles

“Índio sm: indivíduo que pertence a grupo étnico descendente dos aborígenes americanos”. Entretanto, como aborda a antropóloga Betty Mindlin, a questão do que é ser indígena na contemporaneidade, sua identidade e seu lugar dentro da composição social do país são muito mais complexas do que define o dicionário.

Um ideário corrente na sociedade brasileira , principalmente nos séculos XIX e XX, era o de que o “verdadeiro índio” seria somente aquele que andava nu pela selva, não falava português,  se comunicava exclusivamente através de uma ininteligível língua nativa, pintava o corpo em ocasiões especiais e executava ritos exóticos. Essa imagem pré-concebida veiculada ao longo dos séculos por escolas e meios de comunicação de massa foi, contudo, quase superada por completo. “É possível permanecerem índios com suas terras, sua cultura e língua sem deixar de serem cidadãos brasileiros. Não é uma coisa simples, mas mesmo quando a ideia de que o índio é também um cidadão não era tão forte no país como eu acho que é hoje, esses povos persistiram lutando por seu espaço”, diz Mindlin.

Para a antropóloga e também economista, é possível que o índio se insira na sociedade brasileira (principalmente urbana), sem que para isso ele perca sua identidade original. Ela, que é contra a assimilação no sentido de dissolver o que é indígena em detrimento a adoção de práticas comuns da sociedade ocidental, encontra respaldo em casos como o da atriz que participou do filme sobre os irmãos indigenistas Villas-Bôas. Membro da tribo Kambeba, Adana Kambeba que interpretou a personagem Kaiulú no longa metragem “Xingu”, é atualmente aluna do curso de medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e tem como objetivo, depois de formada, retornar a comunidade e aliar os conhecimentos da medicina de origem grega com as práticas ancestrais indígenas: “Pretendo mesclar as duas medicinas, a ocidental e a tradicional (indígena) e assim provocar uma espécie de diálogo entre ambas. A visão que eu tenho é de que as duas práticas possuem riqueza e têm muito a contribuir ao se complementarem”, disse a atriz em entrevista ao portal Uol.

O processo de reafirmação da identidade indígena,  juntamente com o resgate do sentimento de orgulho em pertencer a etnias autóctones, têm encontrado nas novas gerações um forte meio de propagação. Jovens da tribo Guaraní-Kaiowá descobriram na melodia e rimas tradicionais do Rap (sigla de “Rythm and Poetry”, estilo musical criado pelas comunidades negras estadunidenses) uma forma de expressar seus anseios e angústias, assim como revelar o cotidiano em que estão inseridos para índios e não-índios, utilizando, para isso, o português mesclado com tupi-guarani. “O Rap para nós é uma ferramenta de defesa contra o preconceito e o racismo. E o tupi-guarani mostra que somos índios e que nossa voz nunca vai se calar” revelou Bruno, um dos criadores do Brô Mc’s ,  primeiro grupo indígena de Rap do Brasil.

Ao longo de 500 anos de colonização, povos indígenas foram reprimidos física e culturalmente, sendo forçados a renegar sua cultura tradicional; como forma de sobrevivência, eles tiveram de aceitar os costumes e religião impostos pelos colonizadores. De acordo com Betty Mindlin, “Apesar de todos os crimes que foram praticados contra eles, a força indígena é surpreendente. Os índio demonstram uma vitalidade que não temos. A ideia de pertencer  a uma comunidade, de ser reconhecido enquanto povo, de falar uma língua e possuir uma maneira própria de ser é o que garante sua sobrevivência”.

Programas de saúde, a conquista de importantes documentos como a Declaração dos Povos Indígenas, feita pela ONU, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, e a garantia do cumprimento dos direitos legais indígenas são exemplos de ações que têm resultado num aumento da taxa de crescimento desses povos: “A população indígena está aumentando. Se olharem dados do IBGE, verão que a cada momento ela cresce. Hoje essas populações tem condições de reprodução pois estão nas terras delas”, exemplifica a escritora e estudiosa há mais de 20 anos sobre questões amazônicas, Neli de Mello-Théry.

Porém, não são somente essas assertivas que estão fazendo o número de índios aumentar no país. A valorização da cultura ancestral tem feito com que cada vez mais comunidades se assumam indígenas,como no caso do povoado ribeirinho São João Batista. A comunidade, localizada em Careiro da Várzea (AM), se autodenominou indígena após a descoberta de vestígios arqueológicos que comprovavam suas origens, passando a se chamar “Aldeia Mura-Tucumã”,pertencente ao povo Mura. A valorização do índio segue rendendo outros frutos, como a criação de universidades indígenas e a publicação de livros nas mais diversas línguas nativas.

“Hoje, a população indígena tem acesso a muitas informações, como métodos contraceptivos, por exemplo. Essa era uma questão tabu para os antropólogos, temerosos dos impactos que esse tipo de conhecimento poderia causar n população, tanto estatística quanto culturalmente. Entretanto, o crescimento das cidades em torno de terras indígenas trouxe consigo doenças como a AIDS, que antes não existiam nas comunidades. Os índios devem ter todas as informações possíveis para se protegerem”. Como ilustra a fala de Betty Mindlin, a inserção indígena na sociedade urbana, para que seja positiva, deve partir da vontade de integração do próprio índio. Quando a aproximação é feita de forma opressiva pela cidade, ocorrem nas comunidades não somente impactos fisicamente perceptíveis, mas também de ordem social, cultural e psicológica, como o problema de novas doenças, alcoolismo, tabagismo, violência, entre outros. Um exemplo desse tipo de acontecimento é a situação do povo Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Segundo levantamentos da ONU, essa etnia apresenta o mais alto índice de suicídio do planeta, estando 19 vezes acima da média nacional brasileira para esse tipo de morte. O altíssimo índice de suicídios  estaria ligado ao conflito entre os cerca de 30 mil membros da comunidade indígena contra latifundiários e fazendeiros. De acordo com o ativista indígena Marcos Terena em declaração a Agência Estado, “Isso ocorre por que o lugar onde os Kaiowá vivem se transformou em anexo de uma cidade em franco desenvolvimento”.

À partir de experiências de aproximação com a cultura urbana ocidental, os índios podem decidir se permanecem em contato ou se voluntariamente desfazem as relações com o restante da civilização, configurando os chamados “povos isolados”. Uma aproximação opressiva e etnocidária das metrópoles ao universo indígena pode fazer com que, para proteger seu povo e sua identidade cultural, as tribos optem por isolar-se, como foi o caso dos índios Apiaká do Matrinxã e Katawixi, por exemplo.

“O reconhecimento do tão importante direito dos índios de serem índios e se organizarem como povos é extremamente necessário. Eles tem direito de ter suas escolas, ensinar suas respectivas línguas,escolherem o currículo, horário e forma de ministrar suas aulas; eles tem total autonomia cultural. É lindo ver que hoje os índios estão com seu destino nas próprias mãos”, conclui a antropóloga, economista e escritora, Betty Mindlin.


02 de agosto de 2012