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Intercâmbio voluntário: entrevista com participantes


 

Em busca de saber mais sobre as experiências adquiridas fora do Brasil através do intercâmbio voluntário, o Green Nation entrevistou alguns participantes da AIESEC.
 
Para quem não conhece, AISEC está presente em 1.850 universidades de 110 países e territórios. A plataforma permite que jovens descubram e desenvolvam seus potenciais de modo a ter um impacto positivo na sociedade.
 
Confira a entrevista!
 
Como surgiu a ideia de fazer um intercâmbio voluntário?
 
Dafne Sartorio Sempre tive vontade de fazer um intercâmbio voluntário, mas não conhecia nenhum meio de tornar isso realidade. Eis que um dia uma amiga minha que faz parte da AIESEC me explicou como funcionava o processo, e na mesma semana eu me inscrevi para o intercâmbio em questão. 
 
Nathan Pires A ideia de fazer um intercâmbio sempre esteve em minha cabeça. Como estudante de Relações Internacionais, a possibilidade de adquirir conhecimento sobre a realidade de outro país no cotidiano me encantava. Além disso, gostaria de fazer algo para tentar melhorar a situação de vida das pessoas ao meu redor. Foi aí que surgiu a AIESEC. Por uma amiga, conheci a proposta dessa organização de intercâmbio voluntário visando causar um impacto positivo na sociedade. Depois de alguma reflexão, resolvi realizar esse intercâmbio. 
 
Gabriela Levy Eu nunca tinha saído do Brasil. Queria viajar, mas não dispunha de muita verba e não achava que valeria a pena passar uma semana em algum lugar como turista. Queria passar boa parte do meu verão fora e fazer algo de útil, mas pensava mais nas barreiras que nas possibilidades. Quando um amigo da AIESEC me perguntou se eu estaria interessada, eu disse que sim. Foi quando deu o estalo e eu corri atrás de descobrir os procedimentos. Honestamente, até esse momento, me parecia mais uma forma conveniente de passar um tempo viajando, mas procurando as vagas e vendo todos os tipos de atividades que eu podia desempenhar, fui me envolvendo mais com a ideia e percebendo o intercâmbio como uma excelente oportunidade cultural e profissional. Voltei do Chile querendo mais, passei o ano me planejando e resolvi repetir, dessa vez mais longe e por mais tempo: Egito e Itália.  
 
 
Qual lugar cada um de vocês foram? O que mais chamou atenção sobre o aspecto sustentável?
 
Dafne Sartorio O meu intercâmbio foi na China, em Shanghai (uma das cidades mais poluídas do mundo e a mais poluída que já estive em toda a minha vida). Na questão de sustentabilidade, a cidade deixou muito a desejar: as embalagens de produtos são todas de plástico, e há muito desperdício de todo o tipo de material que se pode imaginar. Além disso, as motocicletas que rodeiam a cidade são muito poluentes. Sendo assim, havia muita poluição do ar e também visual. No entanto, é visível o esforço que a China em geral está fazendo para se tornar sustentável. Um exemplo disso é o projeto de que participei, pois o mesmo tratava de sustentabilidade nas escolas, e percebi que esforços estão sendo feitos para "recuperar o tempo perdido".
 
Nathan Pires No meu intercâmbio vivi por dois meses na segunda maior cidade do Peru, chamada Arequipa. Em se tratando do aspecto sustentável, notei que faltava estrutura na cidade. Parece-me que, apesar dos problemas que nosso país apresenta, em especial o Rio de Janeiro, existem regiões cuja falta de preparação e a cultura de sustentabilidade deixam ainda mais a desejar. A quantidade de veículos desregulados e que, portanto, consomem mais gasolina que o necessário, causam muita poluição na cidade, por exemplo. 
 
 
Gabriela Levy Se falamos em sustentabilidade ambiental, Santiago, no Chile, é em geral parecido com o Brasil. Na escola em que eu dava aulas, havia também oficinas de sustentabilidade dadas por outros intercambistas e o conhecimento prévio das crianças sobre o tema era abaixo do ideal.
 
O contraste maior, no entanto, fica entre Egito e Itália, onde foi e está sendo meus dois últimos intercâmbios. Em Alexandria e em outras cidades egípcias há bastante sujeira nas ruas e pouca consciência ecológica aparente. Para pegar um trem em uma das estações, tivemos que passar por uma extensa montanha de lixo até chegar à plataforma - quase não se viam os trilhos. O Nilo, seja no norte, seja no sul do país, é bem poluído. Enquanto isso, em Roma, há lixeiras de coleta seletiva em cada esquina. Na minha rua, em 200 metros, são 5 ou 6 pontos. Não quer dizer, no entanto, que todos respeitem as regras.
 
Vocês fora bem recebidos? Que atividades cada um de vocês desempenharam?
 
Dafne Sartorio Sim, muito bem! Os chineses são muito simpáticos e fazem de tudo para te agradar. Eu dei aula sobre sustentabilidade em um projeto chamado "Green Power Now", responsável por educar adolescentes de ensino médio.
 
Nathan Pires Quando cheguei no aeroporto, o comitê da AIESEC já estava me esperando. A população em geral me tratou extremamente bem. Sempre tentavam me ajudar quando tinha algum problema e eram muito curiosos sobre o Brasil, curiosidade esta que eu não tinha problema algum de saciar. Sempre me perguntavam sobre as diferenças entre o Brasil e o Peru, se tudo que mostravam nos filmes sobre nosso país era verdade e tudo mais. É interessante também que a maioria dos cidadãos tinham consciência da situação política do país, uma coisa que aqui no Brasil nos falta um pouco. Lá, eu fui professor de basquete e vôlei para crianças desde os sete anos de idade, até os dezessete. Fora isso, ainda realizava palestras com temas sobre tolerância cultural, ecologia e liderança. Foi uma experiência muito enriquecedora para mim poder trabalhar com um público tão curioso. 
 
 
Gabriela Levy Em Santiago, fiquei em uma casa de família onde me trataram de fato, como sua filha.  Na rua, não cheguei a sofrer nenhuma hostilidade. Lá eu dava oficinas de inglês para crianças de 9 a 17 anos. 
 
No Egito, os nativos costumam ser bem receptivos e especialmente entusiasmados com brasileiros. Sempre vinham os comentátios "Kaká, Ronaldo, great football". Na rua, como não precisa de muito pra identificar uma ocidental, eu escutava constantes "welcome to Egypt" de estranhos. O povo é geralmente muito solícito, independente de onde você seja. Entretanto, o estrangeiro é frequentemente visto como uma oportunidade - a cordialidade pode vir seguida de um pedido por gorjeta e o preço é sempre duas ou três vezes mais alto. Em lojas e restaurantes, era possível sentir uma falta de paciência se a comunicação em inglês não era fluida. Fui mal tratada por alguns taxistas, mas nada exatamente traumático. Quando a abordagem ia pro lado do flerte, o jeito era ignorar ou arranjar uma maneira educada de se retirar. Sendo uma menina não-muçulmana, mesmo que eu me vestisse de forma apropriada, podia receber alguns olhares tortos, tanto de mulheres quanto de homens. Entre jovens, a tolerância é bem maior. Os membros da AIESEC me receberam extremamente bem e foram atenciosos do início ao fim. Apesar de tudo, foi a experiência cultural mais rica que eu já vivenciei. Em Alexandria, trabalhei montando o material de marketing de um projeto de desenvolvimento pessoal e artes para crianças. Fui a reuniões em escolas e creches, vendendo o projeto, e fiz alguns trabalhos menores de comunicação.
 
Em Roma, acredito que o costume de receber estrangeiros é tão forte que não faz muita diferença sua origem. No máximo, reagem, bem ou mal, às tentativas de falar italiano. O que me aconteceu de mais curioso foi há alguns dias, quando um motorista de ônibus, depois do ponto final, alterou seu percurso pra dar carona a mim e à minha amiga até nosso destino, preocupado se nos perderíamos ao ter que pegar outro ônibus. Aqui, trabalho com uma equipe de intercambistas da AIESEC onde representamos, cada um, um continente. Somos Brasil, México, Indonésia, Egito e Armênia. Fizemos a promoção do concurso artístico do projeto, que trata do tema diversidade. Agora estamos focados na produção de um documentário sobre o mesmo assunto e na promoção de dois eventos grandes - um onde ocorre exibição e premiação do concurso, além de outras atrações, e um evento de finalização do projeto. Há eventos menores de conscientização ainda por virem, sempre relacionados a artes. Eu, particularmente, cuido das mídias sociais, design gráfico, co-direção e edição de vídeo.
 
 
Este tipo de intercâmbio é caro? O que esta incluído?
 
Dafne Sartorio Não. O real está muito valorizado em frente ao yuan (moeda chinesa), e por isso tudo é muito barato. É possível fazer uma refeição completa e de boa qualidade com apenas R$ 6.
Quanto ao que está incluído,depende do projeto. No meu, o intercambista tinha que arcar com as despesas de alimentação e acomodação. O meu transporte foi pago integralmente. No entanto, vários amigos foram viajar com despesas de refeição, alimentação e transporte pagas. O intercambista é informado de todos os custos antes de aceitar o intercâmbio, e existem diversas opções que variam de acordo com o projeto. 
 
Nathan Pires A taxa do intercâmbio da AIESEC atualmente está em R$ 900,00, um preço bastante barato, se pensado no que está incluso. Além do suporte na busca de vagas para intercâmbio, você ainda recebe uma preparação cultural. Dependendo do trabalho que você realiza no exterior, você pode receber  acomodação, alimentação e dinheiro para o transporte de ida e volta ao trabalho! 
 
 
Gabriela Levy Não é caro, certamente é uma das opções mais baratas existentes, mas claro que exige um planejamento financeiro. A taxa da AIESEC inclui os serviços prestados pela organização, entre inserção no sistema, busca pela vaga e acompanhamento antes e durante todo o intercâmbio. As vagas do programa voluntário provêm acomodação, alimentação e/ou transporte. O intercambista arca com os custos da passagem, seguro-viagem e necessidades pessoais que possa vir a ter no país de destino. Em Santiago e em Roma eu tive acomodação e alimentação - gastava apenas com transporte público e saídas. Em Alexandria, recebia só acomodação, mas, em compensação, o custo de vida é bem mais baixo: eu gastava o equivalente a R$0,17 diariamente com transporte e R$0,60 em um bom lanche árabe.   
 
O que intercâmbio trouxe de bom para a vida de vocês? Algum aprendizado importante? 
 
Dafne Sartorio Eu realmente posso dizer que o meu intercâmbio mudou a minha vida. Fui viajar um pouco confusa com relação à minha carreira, e a viagem acabou expandir os meus horizontes. Voltei com uma nova concepção em relação a tudo, inclusive minha vida profissional. Amadureci bastante, e as pessoas notaram. Surgiram muitas oportunidades porque fazia curso de chinês no Brasil e minha proficiência melhorou muito durante a viagem. Além disso, todos ficam surpresos quando digo que aos 19 anos já fui para a China realizar trabalho voluntário. Essa atitude demonstra pró-atividade e coragem para ir atrás do que se deseja, duas características essenciais quando se trata da vida profissional.
 
Nathan Pires Creio que o que mais me recompensou nesse intercâmbio, além de melhorar meu desempenho no espanhol, foi a visão crítica. Chegando a um país novo, você está atento a todas as diferenças em relação com o lugar de onde você veio. O estranho é que, depois de tanto tempo em outro país, você também passa a enxergar os defeitos e peculiaridades do Brasil. O senso crítico sobre as coisas que antes se pensava que eram inerentes ao homem, na verdade existem somente na região de onde se veio, tanto em pontos positivos como negativos. Após meu intercâmbio, recebi uma proposta de estágio de R$ 600,00 em uma empresa de comércio exterior no Rio de Janeiro. No entanto, recusei. Se aprendi tanto no meu intercâmbio graças a AIESEC, o que mais poderia aprender sendo membro desta organização? Portanto, pretendo seguir um bom tempo aprendendo por aqui. 
 
Gabriela Levy Maturidade, resiliência, principalmente ao lidar com pessoas. Sou agora, com certeza, mais paciente e focada em soluções. Se na primeira vez em que eu me perdi no meu bairro em Santiago eu me desesperei, em situações bem mais desafiadoras hoje eu respiro fundo e sigo. Fui adquirindo um auto-conhecimento importante também pro meu desenvolvimento profissional. No aspecto cultural, aprendi que há tanta similaridade quanto diferença. Passei a confiar mais em gentilezas, a falar com estranhos, perguntar.
 
Quebrei muitos paradigmas e isso só me fez ter mais curiosidade sobre o que é pouco explorado. Minha zona de conforto hoje é muito pouco confortável. 
 
Quando voltei do Chile, fui contratada pro meu primeiro estágio, em um Fórum de arte contemporânea latino-americana. Além da vaga ter sido divulgada por uma amiga da AIESEC, eles se impressionaram com o propósito da organização e com a carga de responsabilidade das minhas experiências, sendo tão jovem.
Levando em consideração que a coleção era da América Latina, casaram com a sensibilidade cultural que eu adquiri no intercâmbio, fora o espanhol, que seria importante para as tarefas do estágio e que eu aprendi na viagem.
 


28 de março de 2012